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2.4.10

# 07 - Assalto

“Silas... eu soube que três de teus clientes faleceram...”

“Sim... eles...”

Um estrondo de porta sendo arrombada com um chute frontal interrompeu o início de diálogo entre o Contador Silas e o Detetive Ney. Os dois voltaram-se rapidamente para a porta e viram um grande pé calçando um coturno atravessar a porta arruinada pelos cupins. Um arrombamento mal sucedido, pois o objetivo do arrombamento em si é derrubar a porta, e não atravessá-la e prender o pé nela, entre as lascas de madeira.

Ney, com toda a sua experiência em casos desse tipo, pegou um pequeno banco de madeira e sentou-se ao lado do pé. As lascas da porta estavam produzindo cortes a cada tentativa do arrombador de puxar de volta o pé invasor. O Detetive Smith tirou o coturno e a meia do pé e ouviu o invasor falar “isso tá me machucando, me ajuda, John”. Ney segurou o pé com a mão esquerda e começou...

“Por mil demônios, o que o senhor está fazendo?” perguntou Silas, com espanto no rosto.

“Cócegas”.

Olhou em direção à porta e perguntou em voz alta para o “pé” e John:

“Eu posso fazer isso à tarde toda... a não ser que cooperem. Quem são vocês e o que querem?”

“Pizza”, respondeu uma voz feminina trêmula (seria John?), enquanto o dono do pé gargalhava em pânico.

“Pizza? Mas que droga de resposta. Faça sentido, por favor...”

A voz feminina trêmula gaguejou um popouco cocomo se catata... catatatassse as palavras e disse, agora com uma quase convicção:

“Somos entregadores de pizza... é uma promoção... caso o cliente não morra de susto nós... droga! Eu sou a Dolores! O teu contador é o assassino e nós viemos te proteger, você é o quarto cliente dele, ele está matando dos clientes mais antigos para os mais atuais e você é o quarto, droga! Abre essa merda de porta!


***


P.S.: A frase "Faça sentido, por favor" foi dita, originalmente, pela Bianca. Putz, eu tinha que usá-la algum dia, é genial...

21.2.10

# 06 - Máscaras

S.I.. “Que besteira”, pensou ele. Não sabia porque acabou usando esta identidade secreta mas, além disso, nunca entendera por que sentiu-se motivado a criar uma identidade secreta. Bem, ele queria ser um herói. O problema é que os heróis só existem nos quadrinhos, filmes, filmes de quadrinhos e nas propagandas de quinta categoria.

Ele nunca passou por nenhum evento traumático, a vida era fácil, sem conflitos; normal, em suma. Os pais perfeitos na infância, poucos amigos, mas leais. Depois o trabalho, tranquilo. A contabilidade sempre foi algo tranquilo para ele, era bom com números. Gostava de falar com os clientes. Era feliz.

Mas sentia-se vazio. A vida parecia não ter sentido, então ele decidia tomar alguma iniciativa, alguma atitude que pudesse melhorar o mundo. Mas nunca conseguia ter uma ideia, os primeiros passos morriam antes de encostar o calcanhar na trilha. Mas achava que apenas ajudar as pessoas em geral era pouco, ele queria registrar o seu nome na história, queria fazer algo grande. Salvar vidas, fazer justiça com as próprias mãos. Afinal, é a ânsia de todo ser humano. Ser lembrado.

Mas ele era muito fraco. Tentou musculação e karatê, mas ficou apenas um mês em ambos, não; 25 dias na musculação e 19 no karatê. Não era muito esperto também, mas enfim, ele não era muita coisa, em suma.

Seus pensamentos foram interrompidos pelas batidas na porta. Devia ser algum cliente cobrando relatórios atrasados, como sempre. Foi atender a porta, lentamente. Ao olhar pelo olho mágico, viu que era Rodney Smith. Sentiu seu peito inflar-se com alguma esperança... mas depois lembrou que Ney não sabia que ele era S. I.; simulou um rosto convidativo e surpreso, depois abriu a porta:

“Olá...”, disse Smith enquanto tentava lembrar o nome do contador.

“Silas, Sr. Ney. Tudo bem?”

Enquanto o Detetive Smith entrava no pequeno apartamento que servia de escritório e dormitório para Silas, três vultos esgueiravam-se no corredor.

Por uma fração de segundo, podia-se imaginar que um dos vultos trazia em sua mão direita uma faca de sobrevivência tamanho grande com uma afiadíssima lâmina em aço anodizado, parte superior com serra dentilhada e cabo anti-deslizante com protetor de mão vazado...

18.2.10

1 - A menina no trem

Através da janela embaçada do trem, uma menina vislumbrava vastos campos verdes. Ainda verdes. O verde, outrora quase um monumento do eterno, nos dias de hoje não passa de um estado transitório, quase um pré-cinza. Ela sabe que terá um futuro cinzento pela frente; no entanto, ao fechar seus olhos, lentamente assiste gotas vermelhas escorrendo sobre a escuridão de seus pensamentos, tal qual os pingos de chuva que escorrem pela janela de vidro, embaçada pelos seus suspiros condensados. Os sentimentos também se condensam. Às vezes, tornam-se tão sólidos que parecemos vestir máscaras.

Os humanos são muito suscetíveis aos próprios sentimentos. Tomemos a ira como exemplo. Quando encolerizado, o humano sente como se uma corrente elétrica circulasse por suas veias, percorrendo cada célula, o alimentando. Os olhos fixos, os batimentos cardíacos aceleram. Alguns gritam, outros simulam o silêncio da estática; outros, apenas sorriem. Mas não devíamos falar de eletricidade, não desta forma. Afinal, ela só será utilizada para alimentar os maquinários fabris daqui a uns dois séculos. Estamos na era do vapor, não o mesmo vapor que se condensa em gotículas de água nos vidros dos trens. Falo do vapor que se condensa em gotículas de sangue no ouro. Ouro de poucos, sangue de muitos, como sempre foi e sempre será.

A menina no trem chama-se Brigitte. Ela está viajando com apenas um propósito: vingança. Deseja vingar-se do homem que assassinou sua mãe, seu povo e destruiu seu lar. Talvez ela não amasse sua mãe, seu povo ou seu lar, mas isso a definia. Brigitte está confusa. Ela olha no fundo dos olhos do seu reflexo e não se reconhece, sente como se fosse o único ser de sua espécie a andar sobre a terra. Brigitte não tem ninguém além do seu nêmesis. Ele é o espelho estilhaçado onde ela enxerga a si mesmo todas as noites quando tenta dormir. Sempre a mesma lembrança, tão clara que às vezes ela chega a se perguntar se as imagens se tratam de uma memória ou se são apenas delírios, truques de uma imaginação insana...

Uma floresta coberta pela neve. Uma grande árvore seca na qual sua mãe se escorava, incapaz de reagir. Respiração ofegante, de quem perdeu a batalha. Vestido branco manchado de sangue, sangue de vários, afinal sua mãe era uma guerreira, todas eram, todos eram, ela era. Ela é. A mulher à beira da morte tentava se levantar, apoiando-se nas raízes da árvore sobre a terra. Ela tentava levantar-se, mas seus olhos não enxergavam o homem que iria matá-la, seus olhos enxergavam a morte cavalgando naqueles olhos vazios do assassino, executor, olhos vazios, como os de uma caveira, impassíveis. Ele trespassou a espada no peito da mulher, sem flexionar um músculo em seu rosto; a mãe de Brigitte fechou os olhos para este mundo, apesar de abri-los com violência, em razão do verme de metal que devorara suas entranhas. O sangue escorria por sua boca, manchando o vestido branco, vermelho, branco, vermelho, vermelho, mármore, carmesim, rainha vermelha, rainha vermelha... tabuleiro mármore e carmesim...

10.1.10

# 05 - Martes

Rodney Smith buscava uma solução. Talvez até uma ideia furada fosse o suficiente para que ele não se sentisse um completo derrotado. Nas últimas semanas, três pessoas foram mortas. Não. Muito mais que três pessoas foram mortas mas, essas três em especial, traziam uma marca em sua testa. Gado do rebanho de um mesmo assassino.

Sequer uma nota nos jornais sobre os crimes. Assunto secreto?

E o informante, S. I., pareceu assombrosamente suspeito. “Tomara que a Margot seja a próxima!”, foi o que ele disse, poucos dias antes dela morrer. Mas os três crimes não tinham ligação alguma, a não ser a tal da marca. A primeira era secretária de um curtume ou coisa parecida, que tinha acabado de chegar do interior do estado, em uma viagem curta. O segundo era um médico e a terceira, dona de uma fábrica de sabão. Livradas, sufocamento, intoxicação.

Que calor demoníaco. O maldito ar condicionado decidiu parar de funcionar.

Smith saiu da sala, pois o sol estava sendo impiedoso. Levava as fotos das três vítimas em sua mão, continuava sem encontrar nenhuma ligação. Por que ligação? Talvez o assassino fosse apenas um louco, matando pessoas aleatoriamente. Ou um cliente insatisfeito.

Chegando à recepção, viu Dolores colocando ração em uma tigela plástica para o cão que ainda não foi devolvido. Isso o fez lembrar de Sinval Ibanez, o ex-marido de Margot. Será que ele é S.I? Um tanto direto, mas talvez por isso, mais evasivo. Talvez fosse apenas um modo de incriminar Sinval, um plano de o tornar suspeito, talvez...

“Precisa de alguma coisa, Seu Ney?”

“Sim. Preciso de algo em comum que ligue estas três pessoas”

Mostrou as três fotos para Dolores.

“A Sra. Margot...Essa outra moça eu não conheço, mas esse homem... ele não me é estranho...ah! Encontrei ele no escritório do contador, eu lembro! Ele era muito bravo, assustador.”

“Contador... se ele estava no escritório do meu contador, então é o mesmo contador da Margot, já que foi ela que indicou o sujeito para mim... mas e a outra mulher... Dolores! Descubra quem é o contador do Curtume Azevedo!”

Smith voltou para a sua mesa, as ideias fervilhando na sua cabeça. Tentava não pensar em nada, preferia esperar a informação, saber se existia um traço em comum entre as vítimas, algo

!aaaaaaaaah! (telefone maldito).

“É o mesmo contador, Seu Ney!”

“Obrigado!”

“Ahá!”, pensou Smith.

“Seu Ney, falando nisso, eu precisarei ir lá no contador, tenho que levar aqueles documentos, que já estão bem atrasados, lembra?”

“Sim, sim... não! Não vá no contador! Eu levarei os documentos, obrigado”, disse Smith, desligando o telefone em seguida. Afinal, ele também é um dos clientes do tal contador, o Sandro... não, não é Sandro, parece que é Sandoval, ou Santos, algo assim, a Dolores sabe.

Preparou-se rapidamente, olhou a cidade cinza alaranjada devido aos raios de sol. A janela estava suja, a cidade também; os pensamentos de Smith, turvos. Não queria cometer outro julgamento tão errado. O passado dói.

Já na porta, ao girar a maçaneta, falou para Dolores:

“Se acontecer algo comigo, cuide do cachorro... e fale do contador para a polícia...”

“Certo, mas não irá acontecer nada, eu sei que não. Os documentos não estão tão atrasados assim...”

Smith sorriu, olhando para a menina-esquilo. Por mais estranha que ela pudesse ser, ele gostaria de ter uma filha como ela. Despediu-se e partiu para o escritório de contabilidade.

Dolores mostrou-se um tanto preocupada assim que ele fechou a porta. Discou um número, enquanto olhava em direção à porta fechada.

“Alô, Pedro? Acho que vou precisar da tua ajuda... dos outros também, talvez... não, nenhum problema com os planos, vai acontecer sim... é algo pessoal..."

26.12.09

# 04 - Obituário

“Empresária do ramo de produtos higiênicos, Margot Dubois morreu no dia 5 de Janeiro, aos 38 anos, no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre, vítima de intoxicação.

Nascida em Uruguaiana, mudou-se ainda criança para Porto Alegre, onde seu pai estabeleceu a Fábrica de Sabões Dubois. Após a perda do pai, conduziu os negócios brilhantemente até falecer.

Foi casada por mais de 15 anos com Sinval Ibanez, com quem teve dois filhos. Gostava de ler, dançar e jogar cartas.”

Era isso o que dizia a página de obituários, que estava com a face virada para cima sobre a mesa de Rodney Smith. “Maldição”, pensou Smith. Agora não seria reembolsado dos gastos do caso do cachorro perdido. Aliás, ainda teria um gasto maior, ponderou ao ver o poodle em sua sala, tomando leite em um cinzeiro fazendo as vezes de uma tigela. E ele não tinha joia nenhuma pendurada em seu pescoço.

Dolores não chegara esta tarde, e o Sol já deitava-se atrás dos outdoors e edifícios. Leu e releu o obituário. Não sabia que a sua cliente era casada... na realidade, divorciada, como descobriu após uma breve pesquisa e alguns telefonemas. Não parecia um assassinato, pelo menos.

O telefone da recepção tocou. Tocou, tocou e tocou. Ney não queria atender mas, talvez fosse Dolores, ele estava preocupado, pois ela sempre fora pontual. Partiu em direção ao telefone, mas ao chegar à porta, ele parou de tocar. Após alguns segundos, voltou a tocar novamente e permitiu que Smith o atendesse.

“Smith... é o Branco... Ficou sabendo da Margot?”

“Olá Branco... sim, fiquei sabendo. Intoxicada, não?”

“Sim, mas você soube da marca?”

“Marca? Não vá me dizer...”

“Sim, Smith... ela tem a mesma marca.”

“Droga...obrigado, Branco. Mais algum detalhe...”

“Não... era isso... qualquer coisa eu te informo.”

“Obrigado... agora eu preciso pensar. Até mais.”

“Até.”

Smith sentia que não podia seguir ignorando estes crimes, sentia um senso de dever que despertava memórias dolorosas em sua mente. Os velhos tempos do então Inspetor Smith. Deveria ligar para alguém, devia haver alguém na corporação que não virara as costas para ele assim como estão virando as costas para estes assassinatos com este estranho traço em comum. Nada foi divulgado na mídia...

Nada divulgado na mídia, nem mesmo no caso de Margot, que poderia ter um pouco mais de visibilidade. Nenhuma menção às marcas...

O raciocínio de Smith foi interrompido por um barulho na porta, um tilintar de chaves que teimavam em não entrar na fechadura. Dolores?

Ney levantou-se de pronto e foi para a recepção, ver se realmente era a sua recepcionista que chegava. Era ela, embora seu sorriso não a acompanhasse. Seus olhos pareciam ter chorado muito, talvez durante o Domingo e esta Segunda inteira, até poucos minutos atrás. Trazia em sua mão um envelope, um tanto amassado. Olhava para baixo, e ensaiou um pedido de desculpas. Smith aproximou-se da menina, que estava prestes a desabar novamente no choro e a abraçou. Não sabia o porquê do gesto que fazia, mas a abraçou. Ela chorou por alguns minutos, em silêncio, enquanto ele a consolava, silenciosamente, apesar de não saber qual era o motivo das lágrimas. Assim que ela se acalmou, Smith a deixou sentada no sofá, e foi preparar um chá para a menina.

Após alguns minutos ela já estava mais calma. Triste, é verdade, mas calma. Eles não trocaram sequer uma palavra, mas não parecia preciso. Os dois estavam imersos em seus mundos particulares. Um latido os acordou da catatonia. Era o cachorro da falecida Margot.

“O senhor... encontrou o cachorro?”, disse Dolores em uma voz dolorida, devido às marcas que o choro deixa na garganta.

“Sim... terei de entregá-lo para o ex-marido dela, um tal de... Sinval Ibanez...”

Congelou.

Sinval Ibanez... S. I.?

8.12.09

# 03 - Vermelho Ibérico!

Obs.: Ahn... bem, isso está começando a ficar problemático. E a minha capacidade de síntese parece ter piorado mais ainda.

***


“Sim, eu comprei a faca... É linda, sim, chegou hoje. Mal posso ver a hora de usá-la... Ah, sim, aproveitei e comprei as luvas pra ti. Um momento... Tenho que desligar, ele está chegando!”

“Quem era, Dolores?”, perguntou Smith ao entrar no escritório e ver ela colocar o telefone no gancho de forma brusca. Ele acabara de voltar de uma busca por um poodle.

“Não... era o senhor da... da tv a cabo... isso.”, disse a garota-esquilo após um breve instante de pasmice emoldurado por um sorriso bobo e brilhante.

“Pensei que tínhamos cancelado a tv a cabo.”

“Sim, foi um engano”, disse rapidamente.

“Ah, bom. Certo, eu preciso de um táxi, pode chamar para mim, por favor?”

“Sim, Seu Ney”

Em sua sala, Smith continuou imerso na dúvida que estava corroendo sua alma cansada. O motivo, era simples: ao chegar em sua casa, após saber da história do possível futuro assassino em série, fez várias coisas. Uma destas coisas foi guardar a sua gravata. A surpresa dele foi constatar que todas as suas gravatas presentes na gaveta eram verde-musgo, em tons e padrões levemente diferentes. Será que o seu próprio informante estava sabotando as suas gravatas? Ou será que todas elas sempre foram verde musgo? Perguntar para Dolores, sim. Dolores deve saber qual a cor certa das gravatas...

No exato instante das reticências, o telefone tocou estridentemente na mesa de Smith, que respondeu com um salto e uma interjeição mal-educada qualquer.

“Seu Ney, o táxi já está esperando pelo senhor” - Smith respondeu um “ok” para a garota-esquilo.

Saindo de sua sala, o detetive parou em frente à mesa de Dolores, e perguntou-lhe, com certa dificuldade:

“Dolores... eu, eu gostaria de saber... - ela estava piscando os olhos freneticamente – eu gostaria de saber... - ela continuava a piscar os olhos freneticamente – eu... por deus, o que que tem nos teus olhos?”

“Poeira, eu acho. Era isso que o senhor queria saber?”

“Não. Qual a cor das minhas gravatas?”

“A que o senhor está usando agora é vermelha, acho que vermelho ibérico! As outras eu não consigo me lembrar, eu não tenho uma boa memória visual, me desculpe, eu queria lembrar mas eu não consigo...”

“Tudo bem...”

O cérebro de Ney processou a seguinte informação:

Verde musgo:



Vermelho ibérico:



“Ahn... mas qual é a cor do esmalte que tu estás usando?”

“Vermelho também”

O esmalte dela era verde escuro. A garota-esquilo é daltônica. Ou lhe ensinaram as cores com nomes trocados na sua infância (chamando “verde” por “vermelho”, talvez “azul” por “amarelo”, etc.). Ou talvez ela tenha um distúrbio psiquiátrico pluricromático.

“Ok, vou descer... o táxi está esperando. Pode fechar o escritório, já está tarde, tarde demais. As ruas podem não ser mais tão seguras como eram antes.”

“Não se preocupe, Seu Ney. Eu pratico krav maga.”

“Oh.. bem... mas mesmo assim, tome cuidado. Até amanhã”

“Até amanhã.”

Quando Rodney Smith, o detetive particular com o nome mais anglófono de Porto Alegre, entrou no táxi, estava um tanto perturbado. Gravatas, krav maga, vermelho-ibérico. Será que não era ele o daltônico? O taxista olhou para ele e perguntou o endereço do destino. Ney respondeu com outra pergunta:

“A cor da minha gravata é vermelho-ibérico?”

“Ok, entendi”, disse o taxista com um um sorriso sinistro despontando em sua boca. “O senhor quer algo especial, não é? - continuou, enquanto dava partida no carro e começava a corrida.

“Na realidade, eu gostaria de saber a cor da minha gravata, mas por que você já está rodando? Eu não lhe disse o destino...”

“Só espero que o destino esteja ao nosso favor.”

O taxista parou em um sinal vermelho e, ao seu lado, parou outro táxi, com algum passageiro. Ambos buzinaram duas vezes. O semáforo de pedestres piscava uma mão vermelha. A mão vermelha parou. Os dois carros saíram em disparada. A corrida começou.

Enquanto um racha ensandecido era disputado entre os dois táxis, um destes carregando o nosso protagonista, outras coisas aconteciam na cidade:

Um palhaço começou a fazer um striptease em frente à sua esposa. Na realidade entre a sua esposa e a televisão, onde passava um jogo de futebol (os de azul contra os de vermelho). Ela gritou furiosa e arremessou o controle remoto na cabeça dele, que caiu da cama e torceu o polegar direito.

No caminho de volta para casa, Dolores foi abordada por um homem alto usando um olho de vidro. Ele a chamou de “gatinha” e pediu os pertences dela. Ela pediu para que ele a deixasse em paz, com sua voz gaguejante de roedor de desenho animado. Ele disse que iria deixá-la em paz, algo como descansando em paz e a atacou com um canivete. Ela quebrou o pulso dele e, logo após, o úmero; isso fez o assaltante gritar como se fosse uma menininha.

Rodney Smith chegou ao necrotério, caminhando. O informante esperava por ele, ansioso, no saguão, e surpreendeu-se quando viu o rosto de Ney com um corte que parecia ter sangrado bastante, mas já estava estancado. O detetive mancava um pouco, também.

“Por mil demônios! O que aconteceu com o senhor, Sr. Ney?” - disse o informante, ainda usando um saco de papel por máscara-protetora-de-identidade-secreta.

“Uma corrida de táxi. Um maldito racha de táxi, onde eu consegui embarcar no táxi do pior motorista que já vi. Ele bateu em um ipê, e eu fui arremessado através do pára-brisas”.

“O senhor deveria usar o cinto de segurança! Provavelmente teria evitado esta travessia através do pára-brisas!”

“Não tinha cinto.”

“Então não deverias ter aceitado esse táxi...”

“Eu não tive tempo, eu só perguntei se a minha gravata era vermelho ibérico...”

O informante colocou a mão sobre a boca, que estava guarnecida através de sua máscara de papel.

“... e o maldito taxista já tinha dado a partida... o que foi, S. I. ? Parece espantado com algo...”

“Isso é um código secreto. Não se deve falar 'vermelho ibérico' dentro de um táxi. Caso estas palavras sejam ditas, o taxista é obrigado a iniciar uma corrida fatal com outro taxista. Geralmente apenas um dos taxistas sobrevive.”

“Ok, S. I. eu vim ver o corpo da primeira vítima. Deixemos as conspirações sobre taxistas e gravatas para outra hora.”

“Certo, Sr. Ney. Como eu previ, tivemos um segundo assassinato. Com a mesma marca. Venha por aqui, Branco está nos esperando com os dois corpos.”

Após uma breve caminhada, entraram na sala do armário de cadáveres. As vítimas estavam deitadas em macas metálicas, com os pés voltados para a porta; cada par destes adornado com uma etiqueta. Um de pés pequenos e delicados – aparentemente da primeira vítima, e um segundo par de pés maior. Na realidade bem maior do que a maioria dos pés que se vê por aí. Ao lado dos corpos, Branco esperava por eles.

Branco, poderia ser garoto propaganda de alvejantes. É muito provável que ele seja uma das pessoas mais despigmentadas do planeta, assim como o Casper, aquele que foi abandonado pela família, quando eles se mudaram para Phoenix. Na realidade, Branco também foi abandonado por sua família. Eles se mudaram para o Rio Grande do Norte, sem se importar com o fato do lugar não ter condições climáticas suportáveis para o filho albino preterido. Afinal, ele sempre foi a ovelha negra da família.

Branco olhou para Ney e abriu os braços:

“Há quanto tempo, Inspetor Smith!” Ao ver o ferimento no rosto de Ney, perguntou em sobressalto: “Mas que catástrofe aconteceu com você? Foi atropelado?”

“Branco, Branco... é Detetive Ney, agora”, disse , apertando a mão do técnico perito albino. “Não fui atropelado, não. Apenas fui arremessado através do pára-brisas. Taxistas doidos, essas coisas.”

“Essa cidade está meio psicótica mesmo...”, concordou Branco, apoiando as mãos na cintura. “Tem um cara no Centro que rega todos os dias um vaso de flor pequeno, cheio de terra e sem flor. Certo noite não resisti e perguntei a ele que flor iria nascer ali. Ele respondeu: vai nascer um coqueiro... mas... vamos ao que interessa, venha ver a menina, parece um anjo!”

Smith aproximou-se da maca com os pés pequenos, da mulher do Vale dos Sinos. Quando Branco levantou o “sudário” que cobria o corpo, o detetive teve uma das piores visões de sua vida. A moça realmente parecia um anjo. Um anjo que caíra de cara no chão e foi atropelado por um ônibus em seguida. Um ônibus bem cheio.

“Você acha que foi mesmo um livro que fez todo esse estrago, S. I. ?”, perguntou Smith.

“Tenho certeza, pode ver estas marcas retas que se estendem por toda a testa dela, logo em cima do 'v'? Devem ter sido feitas com a parte superior da capa dura.”

Branco acariciava a mão da menina, admirando sua palidez cadavérica. Os outros dois olharam para ele com um pouco de repulsa, mas o perito não pareceu se importar muito com isso e disse:

“Ok, deixemos meu anjinho e vamos ao doutor, o cadáver número dois”.

Eles tiraram a cobertura do outro corpo e viram um homem feio, com a mesma marca de “v” na testa. Suas feições pareciam ter sido esculpidas na pedra. As mãos dele poderiam estrangular o pobre Sr. S.I com tanta facilidade quanto as mãos de Sr. S. I. poderiam estrangular um canário.

“Doutor?”, perguntou Smith.

“Sim, um dos paramédicos que o recolheu era paciente dele.”, respondeu Branco, olhando para o morto com os olhos fixos.

“Qual era a especialidade dele?, perguntou S. I., com ares detetivescos.

“Urologista.”, respondeu Branco, com uma voz cavernosa.

Rodney Smith e o Sr. S. I. fizeram uma careta, olhando para as grandes mãos do cadáver. Após alguns instantes em silêncio, Smith perguntou:

“E como ele foi morto, Branco? Pela ausência de ferimentos....”

“Sim, Ney. Ele foi asfixiado. Asfixiado com um saco plástico, enquanto dormia no sofá em sua casa.”

“Interessante”, disse Smith. “Mas, vamos ao que interessa?”

“Como assim?”, perguntou o Sr. S. I..

“Vamos jogar cartas. A polícia que cuide disso, eu não irei me envolver.”, respondeu Smith.

"Você deve estar brincando comigo!", protestou S. I..

"Essa é a minha palavra final. Tenho os meus casos para cuidar."

“Ah... seu... mas... vá lamber sabão!”, exclamou enfurecido, o Sr. S. I., saindo do arquivo de cadáveres. “Tomara que a Margot seja a próxima!”

"Essa afirmação faz de você um suspeito, Sr. S. I.!", gritou Smith. O Sr. S. I. parou, virou levemente a cabeça e disse:

"Isso é irrelevante. Vocês nunca viram o meu rosto."

S.I. bateu a porta com força ao sair.

"Agora mais suspeito ainda."

18.11.09

# 02 - A infame estreia do assassino letrado

(Desculpem-me... não consegui enxugar o texto. Está um pouco encharcado ainda.)

***

Rodney Smith admirava a fachada do bar que costumeiramente frequenta. Uma fachada um tanto feia – talvez por isso não tenha patrocínios. Pela quinta vez, desde que saíra do seu escritório, pensou que não devia ter atendido ao chamado de seu informante. Devia estar se concentrando no caso de Margot. Ou não devia estar fazendo nada, o que parecia ser uma alternativa válida.

Enfim, suspirou e entrou no bar estreito, com um balcão na transversal que se extendia por cerca de metade do tamanho total da área comum. Marlene, a garçonete/proprietária, secava um caneco de chopp. Ela tinha um ligeiro problema em acreditar que eles nunca estavam secos o suficiente, o que incomodava os ébrios que sentavam nos banquinhos altos, ancorados ao longo do balcão com tampo de mármore falso. “Pra quê secar tanto se vamos beber mais chopp aí?”, diziam eles. Ela respondia com palavras chulas. Eles se calavam e lembravam que Marlene se esquecia de cobrar pelas bebidas na maioria das vezes, então a demora era compensada financeiramente.

Smith sentou-se ao lado de um palhaço. O único lugar disponível era ao lado desse pobre palhaço. Ele simplesmente não suportava o maldito palhaço e seus cabelos ciano, nariz vermelho e cara pintada de branco. Mas o pior de tudo certamente era o sorriso amarelo - em todos os sentidos - emoldurado pela pintura labial vermelha (“É para combinar com o nariz...”, o palhaço dizia anasaladamente. Sempre).

“Alô, Rudinei”

“É Rodney”

“Certo, Rudi... ou tu... ou tu prefere que eu te chame de Smiti?”

“...”

Rodney Smith levantou-se e pegou o palhaço pelo colarinho; o ergueu e o jogou contra a parede oposta. O palhaço, enraivecido, pegou um taco de snook (sem giz na ponta) e investiu contra o detetive; este aparou o taco com o braço esquerdo e desferiu um cruzado de direita certeiro no nariz vermelho de seu oponente, que desabou no chão, desnorteado. Ao ver o sangue escorrer sobre a maquiagem branca do palhaço, disse:

“O vermelho do sangue combina com o nariz, também”

Bem, é claro que essa briga de bar com frase feita malfeita não aconteceu. Mas teria sido muito relaxante, pensou Smith. O palhaço, enquanto isso, apenas pensava que devia largar o escritório e viajar para uma praia bem quente. Viver da venda de cocos. Mas não era capaz de comprar seu sonho.

Aliás, por que maldito motivo ele tinha esse maldito nome, Rodney Smith? Morando em um país lusófono, isso era realmente insuportável. Se fosse só o nome, como Rodney Silva, poderia ser chamado só pelo sobrenome... Detetive Silva. Se tivesse conhecido seus pais, pelo menos, poderia perguntar aos cretinos. Sim, ele realmente não gostava do nome, por isso já instruia quem ele conseguia convencer a chamá-lo de Ney.

Marlene, a garçonete/proprietária/secadora de copos com péssima memória recente, olhou para Rodney e fez um aceno de cabeça – ou de nariz, já que este era a parte proeminente de sua cabeça –, indicando o fundo do bar, onde haviam duas mesas de snook. O Informante já devia estar lá. O único motivo para Smith ir neste bar decrépito era o fato de que seu principal informante só aceitava se encontrar com ele aqui.

Era ele mesmo: um homem sob a luz fraca de uma luminária que pendia do teto, característica de mesas de snook. O Informante vestia um terno cáqui e tinha em sua cabeça um saco de papel pardo, com dois furos para os olhos. Essa era a máscara que assegurava o segredo de sua identidade. Os outros clientes do bar já haviam se acostumado, nem estranhavam mais. Agora o estranho da vez era aquele sujeito que contava piadas de ervilhas. Péssimas piadas, diga-se de passagem.

“Sr. R. S., que prazer em vê-lo mais uma vez”, disse o Informante.

R. S. conseguia ser pior do que Rodney Smith.

“Ah, e bela gravata!”, completou enquanto Ney notava que as gravatas dos dois eram verde-musgamente iguais.

“Olá, Sr. S. I.”, respondeu Smith com o máximo de ânimo que pôde expressar, ou seja, quase nenhum ânimo.

O Informante começou a mirar na bola verde menor, enquanto Smith escolhia um taco. Qualquer um mesmo, não gostava de jogar esse jogo. Não gostava desse lugar e muito menos de piadas de ervilhas (“O que a ervilha neta falou para a ervilha avó? Ela disse: Não ligo a mínima para sua artrite, sua ervelha!”).

(Durante esta conversa, os caros leitores podem adicionar, em sua própria imaginação, o som do jogo de snook. Vocês sabem; barulho de taco, bola, caçapa, etc. Podem adicionar alguma música ambiente também, de preferência algo instrumental, para que a letra não interfira nas falas do diálogo. Ou cantado em russo, desde que, obviamente, o leitor não entenda russo)

“Tenho uma pista quente para você desta vez, Sr. R. S”, disse enquanto errava a bola verde e encaçapava a marrom e a amarela, em sequência. “Nesta vez não será como aquela do mercado de órgãos...”

Smith lançou um olhar faiscante em direção ao homem com cara de papel kraft. Quase tão faiscante a ponto de quase incendiar a máscara do informante e disse, entre os dentes:

“Mercado de pianos, você quis dizer...”

“Não me olhe desse jeito, aquele anúncio era suspeito! Como eu ia saber? “Após um breve momento de silêncio, o Sr. S. I. retomou o assunto: “Ok, Sr. R. S., lhe darei a informação que eu havia prometido. Teremos um caso de assassino serial.”

“Teremos?”

“Sim. Tenho certeza que o assassino irá matar novamente. Eu vi o corpo da vítima no necrotério.”

“O que você fazia no necrotério?”

“Eu jogo cartas no necrotério, com o Branco... você lembra do Branco né?”

“Sim, prossiga, por favor, quem é a vítima?”.

“Uma mulher, 23 anos de idade. Veio do Vale dos Sinos para visitar familiares. No entanto, foi assassinada brutalmente”

“A que tipo de brutalidade você se refere?”

“Aparentemente... ela foi espancada até a morte, com muitos golpes de livro”

“Estás me dizendo que mataram ela a livradas?”

“Bem, não encontraram o livro, mas creio que seja um dicionário, dos grandes. Com setenta mil verbetes, no mínimo”.

“E por que diabos tu acha que isso se trata de um assassino serial?

“O assassino fez uma marca na testa dela, com algum tipo de instrumento cortante.”

O Informante pegou um giz que estava pousado sobre a caçapa de uma das quinas da mesa e desenhou um rudimento de "v", que mais parecia um 'check'.

“Intrigante, mas isso tem cara de história que irá me dar prejuízo. Estou quebrado, acho que irei apostar no caso da Margot...”

“A francesa dona da fábrica de sabão... e qual é o caso dela?”

“O poodle dela sumiu, junto com a coleira de ouro.”

“Poodles e joias... não acredito que você irá preferir pegar um caso tão comum com a possibilidade de abraçar um caso de serial killer! Qual foi a última vez que o senhor viu um caso desses aqui na área?”

“A polícia que cuide disso, sou um mero civil que procura poodles para mulheres ricas. Além disso, quem garante que não foi apenas um crime passional? Claramente o livro foi uma arma improvisada.”

“E a marca? Tens alguma ideia?”

“Não. Mas eu precisaria ver isso com os meus próprios olhos. Pode ser a inicial do criminoso, ou talvez algo que faça sentido para ambos, assassino e assassinada.”

“Interessante. Creio que se o senhor assassinasse alguém, seria um ato passional, no calor de um momento de ira, contida há muito tempo”

“Como assim? O que te faz pensar isso?”

“As pessoas costumam olhar para os outros da mesma forma que olham para si mesmo. E para escrever também, pois se, por exemplo, estivéssemos vivendo uma história fictícia, o autor provavelmente seria um tipo similar de assassino, já que ele seria inexperiente com histórias de investigação e apenas conseguiria imaginar modos e motivos para matar nos quais ele conseguiria se imaginar, supondo esta hipótese.”

“Ok, pode me prender como futuro serial killer. E é muito simples imaginar um assassino armado com um dicionário, não sei como isso nunca me ocorreu antes. Prenda o autor também mas, caso o ele seja preso, teremos um grave problema de continuidade. A menos que ele continue a escrever na prisão.”

O Sr. S. I. fingiu ignorar o sarcasmo de Smith.

“Bem mas, se mudares de ideia, passe no necrotério, jogue umas partidas de pife comigo e com o Branco e aproveite para olhar o corpo da vítima.”

“Estranho você me convidar para algum lugar que não este bar decadente.”

“Precisamos pegar este caso... aqui, fique com o meu cartão. Com ele, o porteiro irá te deixar passar no necrotério.”

Rodney Smith recebeu o seguinte cartão:



“Que cartão mais estranho... isso... ahn, deixa pra lá. Amanhã eu passarei lá, com uma condição.”

“Qual, Sr. R. S.?”

“De agora em diante, me chame por Ney.”, disse o detetive enquanto virava as costas e se preparava para ir embora.

“Certo, Sr. Ney. Ah, e outra coisa... sei que não é da minha conta mas... ontem eu vi a sua secretária conversando com um brutamontes, em um beco. Achei um tanto suspeito.”

“Deposito total confiança em Dolores. Ela é muito responsável e vem trabalhando comigo há algum tempo. Se ela fosse suspeita, eu já teria notado.”

“Certo, me desculpe pelo comentário... espero você amanhã.”

18.10.09

# 01 - Apenas mais um prólogo típico...



Sentado em sua cadeira, o Detetive Rodney Smith investigava. Averiguava algo que provavelmente era uma pista. Uma fatura telefônica. Seu rosto estava cansado, os cabelos, que já exibiam alguns fios prateados, e a barba por fazer lhe pesavam visualmente uns dez anos de idade a mais. A mesa, que devia ter sido muito bela há umas duas décadas, estava repleta de papéis, pastas e algumas fotos. No entanto, ele ainda analisava a fatura telefônica. Finalmente, chamou a sua secretária:

“Dolores!”

Prontamente, Dolores irrompeu à porta após alguns instantes, anunciada por um breve rangido desta:

“Sim, Seu Ney.” – disse, ostentando um sorriso metálico vacilante.

Dolores aparentava ter 17 anos de idade e parecia um esquilo.

“De quem é esse telefone aqui... 51 3023-XXXX ?”

“Ahn... desculpa, Seu Ney... eu tive de ligar, foi uma emergência. É o telefone do meu avô.”

“Estranho, pois eu liguei agora há pouco, e poderia jurar que era de uma loja de artigos de caça e pesca.”

“Bem...ahn... ah... ele teve um ataque cardíaco... então o médico recomendou um hobby, algo relaxante... pesca. Então... então eu decidi comprar algo para estimulá-lo no novo hobby, então. Desculpe por eu ter ligado...”

“Ah, sim... não, sem problemas... é ligação local mesmo. Só achei incomum.” Dolores abriu outro sorriso metálico, aliviada. Ela realmente parece um esquilo. “E o que você comprou para ele?”

Os olhos de Dolores brilharam.

“Uma faca de sobrevivência tamanho grande com uma afiadíssima lâmina em aço anodizado, parte superior com serra dentilhada e cabo anti-deslizante com protetor de mão vazado. E ainda tem uma tampa com cordão e bússola, parte interna do cabo oca com linha de costura, agulha, fósforos e riscador de fósforo e...”

“...”

“...”

Oportunamente, a campainha começara a tocar na recepção. Ela foi atender, explicando a saída com um gesto com a cabeça e mãos.

Houve um momento desconcertante entre Smith e a seus próprios pensamentos. Momento este quebrado pelo barulho absurdamente alto e arcaico do telefone em sua mesa. Sempre se assustava com aquela porcaria de telefone.

“Seu Ney, a Sra. Margot deseja falar com o senhor...” chiou a voz de sua recepcionista.

“Por favor, traga ela até a minha sala.”

O Detetive Smith ajeitou o cabelo com a mão direita e afrouchou levemente a gravata verde-musgo. “Droga”, pensou ao notar a gravata verde-musgo. Era uma gravata particularmente feia em relação as demais que possuia, isso sem deixar de considerar que as outras não eram lá grande coisa também. Estava ficando antiquado.

Com o rangido saxofonístico da porta anunciando sua entrada, Margot deslizou para dentro do aposento, encarando os olhos de Smith; estes encontraram apenas a impessoalidade dos óculos escuros absurdamente grandes dela e a agressão visual dos lábios vermelhos que se destacavam em seu rosto pálido. Após um instante, ela abriu um sorriso grave com a boca fechada e sentou-se em frente a Smith:

“Ney, eu preciso dos teus serviços”. Sua voz tinha aquele tipo de pastosidade rouca que provavelmente indicaria algum problema extremamente estarrecedor. Talvez um sumiço de poodles ou roubo de jóias, coisas típicas. “Afinal, o mundo em que vivemos é muito típico”, pensou o detetive Rodney Smith.